Entrevista com Jesus Tricolor


Santinha News: Para você, o que significa ser Santa Cruz?


Jesus Tricolor:  Significa contemplar a origem singular de um clube que tem suas raízes nas camadas populares, que foi o primeiro a romper com o racismo, permitindo que um jogador negro (Seu Lauro) pisasse num gramado pernambucano. Isso é ser Santa Cruz.
O Santa conseguiu criar algo único entre os seus torcedores, algo que extrapola as linhas do gramado e das arquibancadas. O sentimento de “família tricolor” é muito forte em nós.

Uma vez, eu estava num festa, e um tricolor me deu a chave do carro importado dele e pediu que eu levasse a sua família para casa. Esse rapaz nunca tinha me visto na vida! Mas ele dizia: “vc é Santa cruz, você é de confiança”.
A gente começa a sentir a importância do clube em nossas vidas no cotidiano, nas relações interpessoais entre tricolores.
Eu não poderia ter nascido em outro clube, senão no Santa. As dificuldades enfrentadas pelo Santa, ao longo de sua história, foram as mesmas que enfrentei na minha, sendo em um contexto diferente.


Santinha News: Como começou o personagem teatral "Jesus Tricolor"?

Jesus Tricolor:  Eu passei vários anos longe dos estádios. Na gestão de Fernando Bezerra, no final de 2008, meu pai foi convidado por um diretor do clube a voltar a ser motorista do Santa. Pai já tinha sido o motorista do primeiro ônibus próprio que o Santa adquiriu, nos anos 70.
Depois que voltou ao clube, a impressa começou a fazer algumas matérias com ele.

Essa dedicação de pai ao Santa, foi uma das coisas que me influenciou a voltar aos estádio. Mas não foi só isso. Eu queria voltar de uma forma especial, simbolizando esta relação torcedor-clube que tem características de uma religião. Meu apelido já era “Jesus”, desde a adolescência. Cheguei até a fazer uma paixão de Cristo, em Olinda. 

A partir de 2009, muitos cristãos descobriram que eu torcida pelo Santa, e começaram a me estimular a fazer o papel de Jesus dentro dos estádio. Eu achei isso muito louco e me preocupei se o povo não iria ver isso como uma blasfêmia. Mas as pessoas que me estimulavam eram cristãs, e elas diziam que se eu usasse o personagem Jesus Tricolor de uma forma positiva, procurando fazer o bem, não teria nenhum problema e seria um símbolo bonito dentro dos estádios, por trazer a ideia de paz, amor e reflexão. Eu também escutava os torcedores falando que o Santa Cruz era uma religião para eles.

Com tudo isso, eu já estava quase decidido, mas ainda faltava coragem. Foi ai que eu comecei a analisar os outros personagens que já existiam: Bacalhau, Super Santa e Chico da Cobra.

Eles serviram de influência artística, de coragem e de criatividade para mim. Desta forma, surgiu o Jesus Tricolor, um personagem teatral, lúdico, carregado de bons símbolos, que representa a forma como o torcedor coral manifesta a sua paixão pelo Santa Cruz.


Santinha News:  Em jogos, ou Campeonato PE ou Brasileiro, qual foi a vitória mais marcante? E a derrota?

Jesus Tricolor:  Em 2011, no pernambucano, com certeza foi a vitória sobre o Sport, na Ilha, por 2 x 0. Naquele momento eu disse: “ganhamos o campeonato”. No jogo da volta, no Arruda, apenas administramos a vitória já garantida na casa do adversário. E, diga-se de passagem, não foi só um mero título, foi à vitória de uma filosofia de vida: a humildade. A soberba dos clubes que recebem repasses de verbas, do câncer do futebol (o clube dos 13), veio abaixo. Que sirva de lição.

No Brasileiro deste ano, eu destaco o empate contra o Treze, lá em Campina Grande. No final do primeiro tempo, estávamos abatidos porque perdíamos. Mas no inicio do segundo, nós não paramos de cantar e logo saíram os dois gols que garantiram o empate mais vitorioso dos últimos três anos do clube. 

Naquele momento, eu também disse que já estávamos na série C. Eu fiquei completamente fora de si, gritando, correndo, subindo no alambrado... Até batuquei na bateria da Inferno Coral, no meio da empolgação.  Ainda levei a baqueta da TOIC comigo. Depois os procurei no ônibus e entreguei. 

A derrota que me marcou foi para o Tupi, dentro do Arruda, na final da série D. Nós estávamos com a nossa casa cheia, um time superior tecnicamente, jogadores ganhado bem mais do que os do Tupi, mas tropeçamos no ataque durante o campeonato todo e isso nos levou a perder o título também. O Tupi foi humilde e aproveitou as duas chances que teve de fazer os gols.



Santinha News: Em toda parte, há algum tipo de bullying, ou perseguição. Você se caracterizando do personagem 'Jesus Tricolor', já sofreu algum tipo de bullying ou perseguição?

Jesus Tricolor: Já sofri sim! Mas ainda bem que foi de uma pequena parte, que não procurou saber sobre o ser humano que estava por trás da roupa, nem nunca me perguntou sobre a proposta do personagem.

Tem o caso dum torcedor que apelidei de “Judas”, pois ele pediu pra fazer foto comigo na carreata da vitória, e depois que começou a me ver muito na imprensa, passou a falar mal de mim.

O cara vivia usando a internet para me jogar contra a torcida, e os próprios amigos dele me contavam. E me contavam porque achavam infantil a perseguição dele comigo. O jeito foi encontra-lo pessoalmente e chama-lo para um diálogo adulto, frente a frente, coisa que ele nunca fez. Nesse encontro, fui bem paciente, expliquei como surgiu o Jesus Tricolor, permiti que ele me questionasse também, e tirei todas as dúvidas. Mas ele não tinha argumentos, era apenas um mero preconceito comigo, algo sem fundamento lógico ou racional.

Mas, também, já recebi críticas pertinentes e bem embasadas, de pessoas que defendiam ideias consistentes, mesmo sendo contrárias ao meu personagem. Mas esses não ficaram pegando no meu pé, apenas colocaram suas críticas e pronto. Eu gosto da crítica porque posso crescer com elas.

Não tenho culpa de nasce parecido com um símbolo religioso. Isso ninguém pode tirar de mim, até porque este apelido já existia antes deu me vestir de Jesus.
Fico feliz em fazer esse personagem teatral, porque em todos os jogos percebo a aceitação majoritária dos torcedores do Santa. Quando viajei para Rondonópolis e para Juiz de fora, onde assistir os jogos do Santinha na série D, o povo dessas cidades adoraram a criatividade do meu personagem. Em todas as cidades, toda a impressa local e muitas pessoas pediram pra fazer fotos.

Até alguns torcedores do Sport e do Náutico, curtem o Jesus Tricolor. Já fizeram três pesquisas na internet para saber se as pessoas são a favor do Jesus Tricolor, uma delas está no meu blog: http://jesustricolor.wordpress.com/enquete/Em todas as pesquisas, a grande maioria das pessoas diz achar legal o personagem. Isso é o reconhecimento de uma coisa bonita que faço com muito amor e respeito.



Santinha News: Na sua família, como você é visto ser o Jesus Tricolor?

Jesus Tricolor: A minha mãe é uma católica fervorosa. Mas ela adora o Jesus Tricolor. Foi ela quem costurou minha roupa de Jesus. Meu sonho é leva-la num jogo com casa cheia, pra ela ver como sou respeitado pela massa coral. Mas minha mãe já um pouco adoentada e morre de medo da violência. Mas ela já disse que quer ir um dia. Se ela for, será meu primeiro milagre.

Meu pai (o motorista do Santa), nunca gostou muito dessa minha ideia de se vestir de Jesus.
Só depois eu descobri o porquê. É que os funcionários do Santa ficam abusando, chamando ele de Deus. Mas hoje em dia, ele está mais flexível com isso. Já até me ajudou indicando pessoas para as minhas caravanas. Meu irmão e minhas irmãs acham legal também. Existem algumas outras famílias que gostam tanto de mim, que só deixam os seus filhos irem ao estádio comigo, porque sabem da minha responsabilidade, porque sabem que não consumo álcool e não sou envolvido com coisas erradas.


Santinha News: Quem lhe influenciou a ser torcedor do Santa Cruz?

Jesus Tricolor: Meu pai! Ele trabalhou no Santa de 1975 a 1981. Pai foi responsável por carregar um dos melhores times da história do Santa, que tinha em seu elenco ídolos como Givanildo, Fumanchu, Ramon e Nunes. Quando fiz 12 anos, Pai me colocou na escolinha do clube. Eu tive a oportunidade de jogar no gramado do Arruda, com a torcida me vendo. Foi uma das mais fortes emoções da minha vida. 

Mas eu era garotinho ainda, nem sonhava em ser o Jesus Tricolor. Este ano, durante o pernambucano, quando acordei, o Thiago Cunha e o Têti estavam em minha casa. Foram conversar com pai. Thiago tinha acabado de ser afastado pelo departamento médico, com um problema no calcanhar. Eu lembro que aproveitei pra puxar a orelha dele. Naquele momento ele era um bom jogador. Resumindo, minha vida está toda cercada de Santa Cruz.


Santinha News: Como você ver a "fama" local?

Jesus Tricolor:  Quando ando nas ruas, nos ônibus, no metrô, na faculdade, nos eventos do Recife, as pessoas me reconhecem, mesmo se eu não estiver com a camisa do Santa (o que é muito difícil).
Uma vez, um rapaz me reconheceu dentro do metrô lotado, naquele horário das 18h. Ai ele quis fazer uma foto comigo. Mas a gente mal conseguia se segurar. Foi muito engraçado.

Na Virada Cultura, eu esbarrei com o Maestro Forró. Ele ia se apresentar. Ele olhou pra mim e perguntou: “você é o Jesus Tricolor?”. Eu respondi todo envergonhado “sim, sou eu.” Ele disse: “poxa cara, eu sou seu fã”. Eu fiquei sem palavras, por ser um grande artista como ele dizendo que era meu fã.

Eu faço o personagem de um forma tão natural que não vejo como fama algumas aparições minhas na mídia. Eu já era bem conhecido nos movimentos sociais do Recife. Já sai em algumas matérias quando fazia trabalhos culturais numa ONG e quando eu era do movimento estudantil independente. Hoje, enquanto Jesus Tricolor, prefiro dizer que sou “conhecido”, não famoso. Não faço nada demais para ser chamado de famoso, embora, nesse país, as pessoas que fazem mais idiotices são as que são famosas, basta você ver programas como o Big Brother. Lá está cheio de famosos inúteis.

Para muitos, futebol é uma grande bobagem, uma alienação e tudo que vem dele, também. Nesse caso, o Jesus Tricolor seria uma porcaria. Mas cada universo tem suas particularidades. No futebol existem personagens criativos, como o Bacalhau, Mister N, Cabuloso, Super Santa, etc. Essas pessoas trazem para o mundo do futebol a ideia de alegria, irreverência, paz e o aspecto familiar. Vejo como artístico tudo que estes torcedores símbolos fazem, porque eles criaram algo novo. Por este motivo, podemos dizer que nós temos alguma importância para a cultura do futebol.

A mídia futebolística gosta do novo, do criativo, daquilo que passa uma mensagem. Por isso que todos os torcedores símbolos estão sempre nos jornais. Seria muito chato ficar mostrando apenas o jogo e aquelas respostas clichês típicas de jogadores.




Santinha News:  Como torcedor, o que você detesta no futebol? E o que você adora?

Jesus Tricolor: Eu não gosto de futebol. Gosto do Santa. Eu passei alguns anos afastado do futebol por considerar que ele deixou de ser arte e passou a ser um mercado sujo. O que me fez abandonar o futebol foi aquele caso da copa de 1998, na França, onde a seleção se envolveu num escândalo junto com Ricardo Teixeira, Zagallo (técnico), Américo Farias (supervisor da seleção), e Ronald Rhovald (representante da Nike). 

Atualmente, nós vivemos mais um escândalo envolvendo o nome do Sr. Ricardo Teixeira, que está sendo acusado de corrupção, por está ligado a um esquema milionário de pagamento de propina.

São coisas como esta que nos envergonham. Outra coisa, o futebol está passando por um processo de elitização que se acelerou de uns 5 anos para cá. O principal sintoma disso são os preço abusivos dos ingressos. Quando o Curitiba subiu para a primeira divisão, avisou que cobraria R$ 100 pelo ingresso. É um absurdo!

Observe que vários clubes estão destruindo seus estádios para construir as chamadas “arenas”. E, em todos esses projetos, não há aquela parte mais barata para o torcedor, as conhecidas “gerais”. Na Inglaterra, por exemplo, existem projetos para transformar os estádios em shoppings e os torcedores em consumidores. Muitas dessas arenas aqui no Brasil, já parecem verdadeiros shoppings mesmo. A ideia é deixar tudo caro, para expulsar os torcedores pobres.

E tem muita gente poderosa nesse país, que está por trás disso: empreiteiras que elegem mais da metade dos deputados (e que para elas é um bom negócio essas reconstruções de estádios); os diretores de clubes e de federações, que veem nisso uma boa oportunidade de fazer o conhecido “caixa dois” e, por ultimo, as Tvs que querem um espetáculo organizado, sem problemas e vendível.  Ou seja, o futebol está indo por um péssimo caminho.


Santinha News: Como você vê as torcidas organizadas? É a favor ou contra?

Jesus Tricolor: Não há como negar o papel das T.O’s na construção da festa que é feita nas arquibancadas e no incentivo para os times dentro de campo. Nesse sentido, ela é uma ferramenta fundamental. O problema é que, do surgimento da primeira T.O, até os dias de hoje, o sentido das coisas mudaram. Eu continuo sendo a favor das Organizadas, mas nós precisamos levar o debate para dentro das organizadas e para dentro dos bairros.

O Estado não tem que ficar apenas reprimindo as TO’s, mas precisa escutar quem faz parte delas. Essa violência tem uma razão de ser. Ela não é tão gratuita como muitos acham. Ninguém sabe da violência social e simbólica que muitos desses meninos sofrem, antes dele praticarem um delito.

Quando foi que você viu acontecer, num bairro de periferia, um debate sobre brigas entre torcidas e briga entre bairros, por exemplo? Quando é que o Estado foi num morro perguntar o que os jovens estão precisando para conduzirem suas vidas de forma digna?
Muitos desses meninos passam a vida toda excluídos das grandes decisões e, o único momento em que são algo, é quando estão em cima do ônibus, surfando. Naquele momento, eles deixam de ser um “nada” e passam a ser vistos pela sociedade. Mas esse assunto é muito complexo.

Agora, por outro lado, as TO’s poderiam cumprir um papel fundamental na tomada de consciência desses jovens, mas a maioria das TO’s está nas mãos de pessoas sem visão social, política e de mundo. As TO’s viraram empresas muito lucrativas. E pior, não existe fiscalização. Isso significa que um presidente ou diretor de T.O pode roubar que não vai ser acionado judicialmente.

O governo presta contas à sociedade através do Tribunal de Contas, por exemplo. E as Organizadas, prestam contas a quem? Na maioria das TO’s, não existe um mecanismo de prestação de contas. Então, quando algum diretor se envolve com corrupção, ele é apenas afastado. Depois ele pode pegar a dinheiro que roubou de uma torcida e cria outra. Pronto!

Eu defendo a T.O que ajuda o clube dentro e fora de campo. Torcida Organizada tem que fazer uma grande festa dentro dos estádios, mas também, precisa estimular os torcedores a se associar ao clube, além de fazer com que eles também ganhem algo por ser sócio. Na torcida do Santa, nós temos o exemplo duma torcida que surgiu para fazer algo desse tipo. Isso é muito bom e eu tenho apoiado esse projeto.


Torcida Organizada tem que fazer um trabalho de tomada de consciência entre os jovens, estimulando debates, fazendo palestras e atividades sócio-culturais. Já se foi o tempo em que T.O era só pra cantar dentro dos estádios. 

No futebol, assim como em tudo na vida, existe o lado político que movimenta as coisas. No futebol é assim também. E o clube está envolvido nisso. Portanto, a Organizada precisa ter uma posição política sobre assuntos ligados ao futebol e ao clube. Se a Organizada não tiver isso, ela será considera alienada, ela será apenas uma empresa com fins lucrativos. 

Além disso, a T.O precisa ser independente do clube, para que ela possa protestar e cobrar do clube, nos momento que forem necessários. Se existir ligação da diretoria do clube com a Torcida Organizada, o clube vai fazer chantagem com a T.O.




Santinha News: Para finalizar a entrevista, mande uma frase aos internautas do Santinha News.

Jesus Tricolor: Torcedor, se você gosta de futebol e do seu clube, procure entender como funciona estas coisas, pois, senão, daqui a alguns anos, muitos de nós não poderemos assistir a uma partida, caso esses projetos de modernização do futebol sejam concretizados. E eles já estão em andamento.

Não apoie coisas como o Clube dos 13, este câncer do futebol brasileiro, que tem privilegiado apenas clubes poderosos e uma única rede de televisão. As emissoras dão privilégio aos mesmos clubes de sempre, que dão audiência a elas porque eles têm torcedores em todos os lugares, e isso garante que elas comprem as cotas dos anunciantes.

Esse esquema vai gerando concentração de dinheiro nas mãos dos mesmos clubes de sempre que, com o dinheiro dado pela Tv, podem comprar jogadores milionários e ganhar mais campeonatos. Essa desigualdade tem feito clubes pequenos desaparecerem.




Desde já, agradecemos a participação desta ilustre pessoa, que é o Pedro Luna. E esperamos que esta seja a primeira de muitas entrevistas. 
Atenciosamente, Equipe Santinha News.

Santa Cruz News

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