O torcedor maltratado

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POR BRENO PIRES
Talvez os nossos clubes de futebol não entendam bem a figura do torcedor de futebol na época atual.


Torcedor de futebol é um tipo especial de consumidor no mundo capitalista. Ele não precisa ser conquistado. Ele cria um laço afetivo com o clube sem que o clube precise provocar isso. Vem da família, vem dos amigos, vem de assistir aos jogos na televisão. E a entidade esportiva não precisa fazer propaganda para mantê-lo.

É de graça que o torcedor gosta do clube e gera receitas para o clube. É uma essencial fonte de receita. Paga ingresso, compra produtos, se associa, enfim, contribui financeiramente. É também o motivo pelo qual os clubes conseguem contratos de patrocínio. A audiência que o torcedor dá ao clube na televisão também aumenta as receitas. Em última instância, o torcedor é a razão da existência do clube.

Entretanto, o torcedor tem também expectativas. Quer que seu clube ganhe, cresça, dispute títulos importantes. Quer que o clube preserve seus ídolos. E não só assuntos de dentro de campo. Também quer ter experiências agradáveis enquanto torce. Um bom tratamento dentro do clube é fundamental. Quer sentir-se respeitado. 

Nem sempre as expectativas daquele que torce são atendidas. Isso é um fato com que o torcedor vai se acostumando aos poucos, passa as respeitar as limitações dos clubes. A realidade do futebol brasileiro é deficitária em muitos aspectos. A insatisfação faz parte da experiência do torcedor no futebol. E ela pode ser externada de diversas formas. Há quem deixe de ir a jogos, há quem deixe de pagar as mensalidades de sócio, há quem pare de torcer por clubes em situações extremas. E há também quem proteste.

O futebol é um local de descarrego de tensões e emoções individuais. Mergulhado na massa, o cidadão assume comportamentos que normalmente evita como agente individual. Que torcedor nunca vaiou o time? Que torcedor nunca soltou palavrões direcionados a alguém da equipe, seja jogador, seja treinador? Quem nunca pediu a saída de algum técnico? São poucas as exceções.

Os clubes de futebol precisam saber lidar com o torcedor. Se falta racionalidade e tolerância muitas vezes entre os torcedores, não pode faltar por parte do clube e dos seus representantes, seja seguranças, seja presidente. 

Quando um clube de futebol age contra um único torcedor, ele atinge indiretamente aos demais. Todos se colocam na situação do envolvido. 



Na contramão de todo o exposto, o que estamos vendo em Pernambuco são atentados contra a dignidade do torcedor.

O Náutico e o Santa Cruz tiveram, cada um, uma atitude agressiva contra seus próprios torcedores nos últimos 15 dias. Os habituais palavrões e os ocasionais protestos viraram motivo de expulsão de estádio, e de forma bruta.

Nos Aflitos, o sócio Marcus Walmsley foi tirado na marra das sociais do Náutico na partida contra o Porto, no dia 7 de março. No Arruda, torcedores foram agredidos durante protesto contra a eliminação do Santa Cruz na Copa do Brasil para o inexpressivo Penarol-AM. Um segurança deu pontapé nas costas de um e tapa na cara de outro. Violência e covardia.

Entre as justificativas dos dois lados, algumas desculpas esfarrapadas. O chefe da segurança do Náutico, Coronel Meira, disse que o sócio iria apanhar de outros sócios -- que discordavam de seu comportamento -- e foi retirado para ter a sua integridade preservada. Só que ele foi retirado quando tinha saído do local onde estava para comprar um refrigerante. O chefe da segurança do Santa Cruz, Major Bione, tentou justificar a agressão dizendo que o segurança agressor teria sido ofendido pelos torcedores. 

É absurdo que o chefe da segurança do Santa Cruz justifique uma agressão física por causa de uma agressão verbal. A obrigação do segurança é garantir a segurança pela prevenção da violência. Ele não poderia perder o controle e partir para a violência jamais. Ele agiu como infantaria. O Santa Cruz precisa rever o seu quadro de seguranças. O agressor citado, que pode ser identificado neste vídeo, não tem o mínimo de preparação para cuidar da segurança do clube.Obviamente, os torcedores também precisam refletir sobre a maneira de agir. Toda crítica é aceitável. Mas as ofensas devem se evitadas. No caso dos tricolores sexta, houve exagero.
É de se registrar que os clubes pernambucanos estão cheios de militares nos cargos mais importantes da segurança. Mal preparados para lidar com torcedores, eles estão tratando torcedores como criminosos. E isso é imperdoável.

Está havendo uma tentativa de adestramento do torcedor. Ele não pode mais falar e protestar; para o clube, é um latido indesejado a ser eliminado. Só que torcedor não é cachorro. Não senta e cala. Pode raciocinar e ver que está sendo feito de besta. E abandonar o clube.


Além do direito de expressão, o torcedor tem o direito de escolha.


Talvez os dirigentes dos nossos clubes pensem que ainda estamos numa realidade de quase 50 anos atrás. Num futebol pouco desenvolvido. Num capitalismo embrionário. Na ditadura militar. Censura. Repressão.


Os dirigentes precisam abrir os olhos. Atualizar-se e atualizar os seus encarregados. Trabalhar para trazer mais torcedores e manter os atuais. Não se pode admitir que o torcedor seja humilhado.


Esta reportagem compõe o quadro de notícias do Blog do Torcedor, pertencente ao Jornal do Commercio. Destaco aqui, desde já, a fonte donde foi retirado o texto, redigido por Breno Pires - jornalista e funcionário da empresa. 


Santa Cruz News

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